Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

...bienal italiana...

Começa domingo a 53a Bienal de Veneza, o mais importante evento de arte do planeta, maior inclusive que a Documenta. Comentarei algumas obras que encontrar na internet depois da abertura (não, não poderei ir a veneza...). Por enquanto, um breve comentário sobre os artistas que teremos por lá.

Da nossa parte, além da Lygia Pape, que comentarei em outro momento (não conheço ainda muito do trabalho dela, me demandará alguns momentos de estudo), teremos uma instalação do já conhecido Cildo Meireles (comentei dele nesse post).

Artista do grupo de 70, tem uma forte atuação conceitual, com conjunto de obras mundialmente famosas, como "Inserções em circuito ideológico" que insere em materiais de circulação massiva (papel moeda, garrafas de vazilhame, etc) conceitos ideológicos, frases provocativas, exortações nacionalistas, ou qualquer coisa do tipo. Embora hoje não aparente grande coisa, essas obras fazem maior sentido quando contextualizadas: foram feitas em plena e alta ditadura, onde a liberdade de expressão era inexistente. Assim, faz sentido carimbar numa nota de cruzado: "Quem matou Herzog?". É a arte no seu mais forte sentido político.

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

...the way thing go...

Dêem uma boa olhada nesse vídeo, e se puderem comprar o original, eu recomendo. Abaixo, comentário.



Embora apenas um trecho, já é bastante elucidativo do que deve ser o restante. Tive a oportunidade de ver o filme inteiro numa aula de história da arte na faculdade.

Os artistas são Peter Fischli and David Weiss, e a obra data de 1987. O interessante é que, mesmo sendo bastante conceitual, a obra tende a agradar a todos, mesmo aqueles que não procuram por seu sentido.

O que vejo nele é o desencadear de fatos, ações, "the way thing go" (nome da obra), apresentando uma metáfora bastante coerente com o dia a dia do homem. Uma sucessão de fatos aparentemente aleatórios, que na verdade vêm em parte desencadeados por acontecimentos precedentes, e que determinam até certo ponto o leque de possibilidades que vêm a acontecer (não questiono aqui a existência do livre arbitrio, mas aponto que a vida não é um arrebanhado de possibilidades equivalentes, mas na inclusão de umas e exclusão de outras a cada momento. Se estou em São Paulo agora, dificilmente poderei estar na França nas próximas horas. Isso já muda se optar por estar no aeroporto. Mas por não ter passaporte, minha gama de possibilidades novamente se reduz para o mercosul. E assim por diante).

Além disso, é interessante observar o nível técnico da obra. É uma pequena mostra de que, ao contrário do que muitos propõem, a arte contemporânea possui sim qualidades técnicas interessantes. Diferentes de épocas anteriores em alguns casos, mas ainda assim igualmente relevantes.

Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

...espaços amplos...

Um assunto que nunca abordei é arquitetura... Talvez pela minha incompetência no campo, mas não pela falta de interesse. Enfim, hoje será um teste... Como esse blog o é por sí, um grande campo de testes de bobagens que escrevo, estamos assim em casa.


O edifício que escolho para uma breve análise é o Masp da Lina Bo Bardi, construido em 1968, com um espantoso vão livre de 70 metros, tombado. A Wikipédia traz bastante informação sobre o prédio e sua história (embora eu não goste lá muito dela).

A análise que faço é na verdade baseada na análise que fez Lucrécia Ferrara no seu livro Design em Espaços. A verdade é que é a melhor análise de arquitetura que já lí sobre, em especial sobre o prédio e sua interação com o local.

É bastante claro que o prédio se difere radicalmente do restante da arquitetura da avenida Paulista. Uma avenida que representa o progresso nacional, com prédios assinados pelos mais importantes arquitetos brasileiros, que também abriga o Conjunto Nacional, o primeiro edifício modernista de grande escala nacional. E é nesse universo que o edifício de Lina se acomoda: dentro da representação brasileira dessa movimentação mundial, que foi o modernismo.

O prédio se caracteriza pelo seu grande vão horizontal, os já comentados 70 metros. Esse grande vão cria a característica magna do prédio, que é a horizontalidade: um edifício de poucos andares, uma parte subterrânea, com uma área de vivência perfeitamente apropriada pela população, tanto como ponto de encontro, como ponto de manifestação. Essa horizontalidade conversa de modo grandioso com o próprio ambiente ao redor do prédio e a arquitetura da avenida: enquanto a maioria dos prédios apresentam sua imponência pela verticalidade, o MASP se apresenta na horizontalidade, servindo de contraponto à monotonia dos demais. Ao mesmo tempo, a verticalidade dos prédios os apresenta como estacas, postes, ou qualquer coisa fincada no chão. Novamente, o contraponto do prédio é esse espaço completo aberto que Lina coloca: uma janela para o que está atrás dele, criando um respiro na grande parede que é um quarteirão da Paulista. O prédio é o antagonismo do paradigma de edifício urbano, e talvez por isso contenha um significado extremamente forte: ser um edifício cultural se apresenta tanto pelo conteúdo quanto pelo seu projeto arquitetônico, que o contrapõe aos outros edifícios empresariais do coração econômico do país.

Aqui, link para o site do MASP.

Terça-feira, 24 de Março de 2009

...cor e realidade...

A postagem passada foi a de número 60... Nem percebi para fazer algum tipo de comemoração ou coisa que o valha... Tudo bem, vamos esperar pela centésima.

Voltando às artes plásticas, me deparei hoje com a obra de uma artista bastante instigante em parte de suas obras, e bastante poética em outra parte. Chama-se Tatiana Blass. Essa divisão arbitrária de minha parte vem a coincidir em outro ponto: a parte instigante corresponde a intalações e esculturas, a parte poética a pinturas, e tentarei apresentar as duas nesse post, mas farei diferente hoje: gostei tanto do seu trabalho que colocarei mais imagens no final (além do link para seu site) além das que decidir comentar.

As telas de Tatiana Blass são bastante interessantes quanto ao uso da cor, e da possível figuração dentro de uma abstração bastante geométrica. O trabalho ao lado chama-se "Paisagem-estampa", 2004, e chama a atenção pelo colorido usado pela artista para sua construção. Em conjunto com o nome, podemos claramente localizar a paisagem nominada pela artista, com um fundo de arvores, arbustos, uma leve névoa, com a parte inferior remetendo a algum tipo de chão, pode ser cimentado, pode ser um lago noturno, etc. A combinação cromática está perfeitamente equilibrada, com a massa cinzenta inferior e suas manchas escuras contrapondo as 5 variações de verde presentes na parte superior. As massas também com essa leve geometrização bastante orgânica ajuda nesse sentimento de natureza encontrado no nome que a artista dá a sua tela.

Neste outro trabalho, já do seu lado instigante, "Globo da Morte" de 2008, chama a atenção pelo movimento que o simples deslocamento de parte da moto invoca, e essa continuidade de tubulações douradas trabalhando como um spectro da aceleração do veículo, embora estranhamente a parte posterior tenha ficado parada. O Globo da Morte é aquela esfera de arames com um grande diâmetro onde motociclistas aceleram suas motos até que fiquem girando em qualquer sentido (vertical, horizontal), desafiando a gravidade com as propriedades da própria física a que esta faz parte. O paralelo desse tipo de apresentação com a obra está justamente na posição do fronte da moto, subindo pela parede, acelerando e quebrando com a mais básica lei da realidade. O encurvamento das tubulações dialogam com as pinturas da artista quanto a sua organicidade.

Outros trabalhos da artista podem ser vistos em seu site, mas tive o trabalho de recortar alguns bastante interessantes para que o leitor possa fruir deles agora mesmo.





















1. Cauda (móveis), 2005




















2. Zona branca (Lustre), 2007


3. Páreo, 2006 - Escadaria do Paço das Artes, Cidade Universitária

Terça-feira, 17 de Março de 2009

...o fim da arte...


No começo desse ano, comprei uma revista que me trouxe um artigo curioso. Intitulava-se "O fim da arte", e eu pensei "Poxa! Mais um?". Esse, na essência é igual a todos (ou quase todos, já que para Arthur Danto, o fim da arte é a simplesmente a arte contemporânea, o que para ele é muito bom), mas bate em outras teclas. O artigo é de Roger Kimball, crítico de arte, e sua tadução de Cristian Clemente, licenciado em Letras pela USP.

Um dos pontos onde Kimball bate insistentemente a tecla é na ausência da beleza na arte de hoje, bem como a importância da religião para a arte como um todo, e que sua falta traz consequências (olha o novo português aí, gente!) graves, e uma delas eu concordo, que seria o endeusamento do artista, que acaba superior aos demais, e junto disso desproporcionalidades, como as centenas de milhões que Damian Hirst ganhou em seu último leilão (Kimball pelo jeito o detesta, eu até que gosto, há o que se pensar em sua obra, mas certamente não vale tudo isso).

Ok, compreendo o que escreve Kimball, mas não posso concordar. Primeiro porque a beleza não é apenas visual (prometo estudar essa parte mais a fundo, mas se não me engano, na concepção clássica de beleza há três pontos que se deve levar em consideração, os quais não me recordo agora). Encontramos beleza, por exemplo, na literatura, ou na música. E onde estaria o problema de a arte lançar mão de conceitos para fazer artes plásticas? Indo mais longe, podemos afirmar com bom grau de certeza que uma arte sem conceito é vazia, pura superficialidade que mal pode ser chamada de arte, por mais apurada que seja a técnica do artista.

E esse é um ponto interessante. Em geral, as pessoas procuram ver na arte a realidade a que estão acostumadas. Ortega y Gasset, em seu fabuloso livro A desumanização da Arte, nos coloca justamente isso: As pessoas "compreendem" a arte figurativa porque se assemelha a sua vivência cotidiana, o que é um erro. Escreve:

"Para poder deleitar-se com o retrato equestre de Carlos V, de Tiziano, é
condição ineludível que não vejamos ali Carlos V em pessoa, autêntico e vivo,
mas sim em seu lugar devemos ver apenas um retrato, uma imagem irreal, uma
ficção".

Isso permanece válido ainda hoje. A metáfora é, portanto, intrínseca à arte. Falar de algo por meio de sígnos é parte dela, e a ausência desse ponto faz com que o objeto deixe de ser arte para ser ele mesmo (aqui um leitor assíduo do blog, se é que existe, pode me questionar a respeito do Minimalismo, o qual colocava sobre si que "what you see is what you see". Falarei sobre isso num post seguinte).

Quanto à religião, Kimball mesmo parece dar uma resposta ao que escreve:

"Não existe uma arte particularmente católica,afirma Jones [David Jones, poeta
católico do século XX], tal como não existe "uma ciência hidráulica católica, um
sistema vascular católico ou um triângulo equilátero católico". (...) Auden pensava da mesma maneira:(...) Apenas o que pode haver é um espírito cristão, segundo o qual um artista ou cientista age ou não"."

A religião é um dos aspectos humanos entre outros (embora possa ser tido como um dos mais importantes, já que rege todos aspectos internos e externos do agir do homem), e o livre arbítrio do homem permite que se o leve em consideração ou não. Entretanto, os pontos essenciais do homem ainda permanecem, e todos temos o que dizer, portanto, material para realizar uma ação artística. Inclusive, a arte não religiosa é índice de uma cultura também rica, e passível de análise da sociedade e seu tempo.

Além disso, não há porque tentar reduzir tudo a dois pontos de vista, unificar todos os desejos artísticos sob os rótulos de "arte religiosa" e "arte não religiosa", já que a realidade é muito mais rica que apenas esses dois pontos, e as nuances que existem entre um extremo e outro não podem ser deixados de lado, e menos ainda forçados a permanecer por debaixo desses dois títulos.

O problema do artigo de Kimball é que ataca para todos os lados, sem apresentar exemplos palpáveis do que fala. David Sylvester, por outro lado, é bem mais claro nesse ponto. Observe o texto a seguir:

"Não se há de negar que posso atribuir ao indivíduo de cultura média as noções de
que a arte do século XX é: I)produto de indivíduos isolados que deixam de dar
expressão à consciência e aos gostos da sociedade como um todo; II)
hiperespecializada, desprovida da amplitude e da complexidade do que veio antes,
propensa a sacrificar importantes atributos da arte para poder desenvolver
obsessões tacanhas até níveis extremos; III) por demais preocupada, em sua
autoconsciência, com questões de estilo e com a obtençãod e originalidade. Tudo
isso vem ao caso, e o que se pode dizer a respeito é o seguinte: em primeiro
lugar, a arte do nosso tempo pode não ser muito boa se comparada com o
supra-sumo, mas foram suas próprias limitações que a fizeram dar uma
contribuição singular para o corpus da arte (e isso é assumir que a
singularidade é uma qualidade necessariamente valiosa); em segundo lugar, as
limitações da nossa arte refletem certas fraquezas da nossa sociedade, e, se a
nossa sociedade fosse diferente, nossa arte poderia ser melhor. (...) Se dizem
que o último Rothko não é um quadro tão bom quanto um Monet, isso não é uma
condenação de Rothko, mas uma definição de arte"."

A contribuição nesse trecho que Sylvester nos fornece é muito maior do que a do artigo completo de Kimball. O próprio Papa João Paulo II escreveu em sua carta aos artístas: "...a História da Arte não é apenas uma história de obras, mas também de homens", e se poderia escrever que a própria História da Arte é a História dos Homens, e merece ser contada.

Segunda-feira, 16 de Março de 2009

...ainda não...



Queria ter escrito sobre esse filme a mais tempo, na verdade, pois já o perdi um pouco na minha fraca memória.

O último filme da carreira de Akira Kurosawa, "Madadayo". É realmente brilhante, e um belo fecho de carreira! O filme trata de um professor e escritor e de seus últimos 17 anos de vida, que celebra seu aniversário numa espécie de ritual de pré-passagem para a outra vida: seus antigos alunos o perguntam "já está pronto?" (Maddha Kai?"), no que ele responde após beber um grande copo de cerveja "Madadayo!" ("ainda não!").

Entre os aniversários, o filme apresenta o desenrolar desses últimos anos, o amor e veneração de seus alunos por ele, o amor entre ele e sua mulher, o apego a um gato (que poderia durar menos tempo no filme...), passando por momentos engraçados (como se livrar de ladrões), comoventes (o discurso do aluno jovem no início do filme) e encantadores (as cenas finais). É um filme bastante longo, que como a vida do professor, insiste em não chegar ao fim, ainda bem, pois nos surpreende pela riqueza a todo momento...
Aqui, uma resenha do filme por Roger Ebert, e um site em homenagem ao diretor.

...som na esquina 2...

Porque se chamava moço
Também se chamava estrada
Viagem de ventania
Nem lembra se olhou pra trás
Ao primeiro passo, asso, asso
Asso, asso, asso, asso, asso, asso

Porque se chamavam homens
Também se chamavam sonhos
E sonhos não envelhecem
Em meio a tantos gases lacrimogênios
Ficam calmos, calmos
Calmos, calmos, calmos...
E lá se vai mais um dia...

E basta contar compasso
E basta contar consigo
Que a chama não tem pavio
De tudo se faz canção
E o coração na curva
De um rio, rio, rio, rio, rio
E lá se vai...
Mais um dia...

E o rio de asfalto e gente
Entorna pelas ladeiras
Entope o meio-fio
Esquina mais de um milhão
Quero ver então a gente, gente
Gente, gente, gente, gente, gente
E lá se vai


Continuando a postagem anterior sobre o Clube da Esquina, transcrevo aqui a letra da música do vídeo, de Lô Borges, Clube da Esquina 2. Não faz parte do primoroso album abaixo comentado, mas é a versão letrada da música de mesmo nome. Também de extremo valor artístico.

Quando comecei a ouvir o disco, sabia da existência dessa versão, mas não quis ouvir, pois para mim a perfeição daquela música instrumental era tal que qualquer letra a rebaixaria, mas, depois de mais de 2 anos, isso se mostrou o contrário: a letra está no mesmo nível da primeira versão.

E o sentido nela é tão forte que para mim se mostra numa temática diferente da anterior: enquanto aquela, como comentei, representa o conceito basilar de felicidade, esta se mostra como a concisão do desenrolar da vida. Extraordinário!

Logo nas primeiras palavras, já encontramos essa grandiosidade: "Porque se chamava moço/ Também se chamava estrada/ Viagem de ventania". A juventude como caminho, como trecho da vida que se volta para certos pontos. E não como uma brisa, que areja, que esclarece, mas como uma ventania, que por ser mais forte, arrasta e transforma o lugar por onde passa. Movimenta o redor e quebra a inércia da estagnação.

"Porque se chamavam homens/ Também se chamavam sonhos/ E sonhos não envelhecem": a imaginação, como ouvi certa vez numa palestra, é a imagem em movimento, e o sonho é justamente a apropriação desse imaginar em prol de um ideal, inconsumível (E basta contar compasso/ E basta contar consigo/ Que a chama não tem pavio), portanto, requisito primário para a mudança, qualquer que seja. Sonhos levam a ações, e bons sonhos em ação são as ditas ventanias. Bagunçam com mais de uma vida, reorganizam as metas de mai de uma pessoa (E o rio de asfalto e gente/ Entorna pelas ladeiras/ Entope o meio-fio).

Aqui, link para o site oficial do Lô Borges e para seu MySpace.

Só acrecentaria uma coisa na música, mas que na verdade poderia ser suprimida, já que óbvia:

"E lá se vai.../ Mais um dia..." feliz...

ps.: depois de escrever esse post, estava tomando banho um dia de manhã e percebi que a música pode ter certa conotação política tbm, já que escrita em 1978, em plena ditadura. Há alguns trechos que se fazem mais claros nesse contexto, como "Em meio a tantos gases lacrimogênios/Ficam calmos, calmos", e o trecho seguinte "E lá se vai.../Mais um dia..." deixa de ser alegre para ser pouco mais ressentido, como um dia perdido, e que não houve mudança alguma. Para uma interpretação do período, acho muito boa a letra, mas minha análise acaba tornando-se mais atemporal, contemporanizada, acredito que sem fazer a música perder muito de si. Num sei, impressões minhas... Digam depois o que acham.

Terça-feira, 10 de Março de 2009

...som na esquina...

Mais um post musical. Não, não estou perdendo as raízes, na verdade, voltando a elas, já que a idéia era falar não só de artes plásticas.
Clube da Esquina é para mim o melhor disco brasileiro de todos os tempos. Sem dúvida alguma. Fui apresentado a ele pelo Gabriel Garbulho (aquele do post Voz como instrumento, mais abaixo), e fiquei ouvindo-o diariamente por mais de 6 meses, ate que meu estágio não mo permitiu mais.

Mas cada vez que ele toca, é algo magnânimo. Nas próprias palavras do Gabriel, "é um disco indigesto". É extremamente seco, não possui grandes devaneios instrumentais, mas apenas pontos precisos, focados numa musicalidade bem brasileira (ou para ser mais exato, mineira). A capa do disco já é de tirar o fôlego, levando-se em conta que foi a primeira aparição de Lô Borges (com apenas 17 anos!) junto de Milton Nascimento (já internacionalmente consagrado). Não há nada escrita na fronte, apenas esses dois garotos sentados na beira da estrada, esperando sabe-se lá o que, mas conscientes do mundo e daquele que os fotografava. O leve riso do pequeno contrasta com a carrancudice do maior, bem como seus tons de pele, bem como a voz de Milton Nascimento e de Lô Borges.

E de todas as músicas, apenas uma foi composta por ambos: Clube da Esquina nº2.

A 11ª de 21 faixas é a música que divide o album em dois, e é a mais bela de todo o disco, mesmo sem letra alguma (e olha que nele encontramos músicas do nível de Trem Azul e Paisagem da Janela): para mim, é o conceito e resumo do que é alegria.

Um arrastado violão em Dó no fundo,
uma leve percusão,
um claro chocalho,
e acima de todos,
duas vozes cantarolando em uníssono: Milton e seu Violão...
Nada mais...




Acima, a versão letrada da música na voz de Lô Borges.

Aqui, link para o site do Milton Nascimento, com um trecho da música.


ps.: domingo agora, dia 19 de abril, tive a enorme honra de assistir no sesc pinheiros ao show do Lô Borges especial Clube da Esquina, tocando com uma participação mais do que especial de Milton Nascimento... Não tenho palavras...

Segunda-feira, 9 de Março de 2009

...ano novo?...

Pois é... mais uma vez aquele veemente desejo de ano novo de mais posts se vai pelo ralo... (Mas devo confessar que é por estar com muitos trabalhos para fazer! E isso monetariamente me agrada, e tambem culturalmente, pois vários me fizeram crescer em alguns pontos. Usarei em breve um deles para aplicá-lo numa análise artística. Design e arte ainda caminham lado a lado, embora não mais de mãos dadas).

Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

...assim como é...



Esse é mais um daqueles posts rápidos. Como fazia um tempinho que num postava alguma coisa de música, aqui vai um excepcional clássico da música de Pat Metheny. O album inteiro vale a pena, mas essa é a que mais gosto. Chama-se April Joy (talvez seja por isso é minha favorita... Eu nasci em abril...). Nem me atrevo a comentar...

Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

...clara afirmação...

Perdi a data mais importante do ano para o blog: seu aniversário... Isso mesmo, dia 22 de janeiro o digerindo arte fez anos! Na verdade, fez "ano", já que completou um ano no ar. E com esse um ano, gostaria de postar algo sobre um artista do qual gosto muito, e que por sinal, é dos que mais ouço falar mal por aí. Trata-se de Robert Ryman.

Da história do artista, sei pouco, mas o sr. leitor pode encontrar na internet em qualquer lugar. Aqui, gostaria de falar de seus trabalhos (aparentemente, ambas coisas, vida e obra do artista, podem ser desvinculadas em certos casos. O que não pode é o período no qual produziu, pois, como diria Ortega y Gasset, "eu sou eu e minha circunstância", e isso diz respeito da mesma maneira aos objetos e sua essência signica).
A característica que mais marca sua obra, e mais causa certa aflição aos que não o compreendem, é o fato de pintar apenas com tinta branca. Anos e anos de produção artística bastante extensa, apenas com tinta branca, no máximo com certas variações dessa, ou com o fundo do suporte no qual se encontra, mas, no fundo no fundo, branco. A pintura ao lado é um exemplo disso. Uma combinação de branco puro com branco levemente acizentado, mas que mesmo assim, ninguém teria o desdém de rebaixá-lo de branco a cinza. São muitas as telas que desenvolve dessa maneira, sempre com essa temática.

Podemos encontrar certa referência na célebre obra de Malevich, "Quadrado branco sobre fundo branco", no qual, pouco após abrir seu movimento Suprematista com o quadrado "Quadrado preto sobre fundo branco", quebra novamente com o figurativismo e dessa vez também com o formalismo geométrico que ele mesmo criou, de forma a utilizar a cor em si, e sua interação com o ambiente (Moholy-Nágy diz que a variação da tonalidade dessa tela se faz pela mudança de sentido da pincelada, e consequentemente , com a incidência da luz sobre essa). Mas aqui, o problema é outro, diferente do de Ryman. No caso de Ryman, este procura através do mínimo necessário expor ao observador a complexidade inerente à pintura. Por utilizar apenas o branco, consegue mostrar-nos uma infinidade de possibilidades da tinta junto à tela, e consegue assim quebrar com a monotonia que estaria ligada à sua produção.

Mas sua produção não é simplesmente experimental dessa maneira, como um catálogo de possibilidades. Há, pelo contrário, bastante poesia em sua produção. É interessante, por exemplo, observar que o uso do branco não remete de maneira alguma à "ausência", mas justamente à "presença". A ausência seria o não ver, a inexistência, uma cegueira, onde o mundo luminoso simplesmente não está alí, como no romance "Ensaio sobre a Cegueira", de Saramago. Também na trilha sonora que Bjork fez ao filme "Dancer in the Dark", de Lars von Trier, na última faixa, "New World", canta: "If living is seen/ I'm holding my breath". As telas de Ryman, pelo contrário, são um grande suspiro, um sopro, da vivacidade de uma única cor, e justamente o branco.

O que é o branco? Na luz, o branco é a presença de todas as cores, o branco é a luz que a tudo banha, e é dele que as coisas extraem outras cores, a fim de mostrar-se-nos como são visualmente. É do branco que saem o vermelho, o verde, o azul. É do branco que origina-se o arco-íris. Vemos que a escolha dessa cor por parte do artista não é de forma alguma aleatória, nem mesmo se fez apenas pela sua limpeza, mas, pelo contrário, todo sentido implícito a essa cor é a vivacidade do mundo e da luz em si, e, porque não, da ausência dessa, como na obra ao lado, onde além do branco, encontramos o cinza, levemente azulado, que é um sussurro do branco, sua forma mais amena de expor-se.
Ryman nos apresenta um grande campo para observarmos a simplicidade das coisas em si, das mais simples, e da possibilidade de gerar-se um universo completo a partir de pequenos elementos, aos quais sempre damos muita pouca importância, mas que concentram em si todo sentido de tudo. Basta que observemos atentamente.

Terça-feira, 20 de Janeiro de 2009

...o livro...

Um post curto... Uma frase que encontrei no site da futura biblioteca Brasiliana USP


"Dentre os instrumentos inventados pelo homem, o mais impressionante é sem dúvida o livro. Os demais são extensões de partes do corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da visão; o telefone uma extensão da voz e finalmente temos o arado e a espada, ambos extensões do braço. O livro, porém é outra coisa. O livro é extensão da memória e da imaginação. " - Jorge Luis Borges, 1978

Quarta-feira, 7 de Janeiro de 2009

...espécies de espaços...

Não, não é mais um post sobre minimalismo, mas sim sobre literatura, já que fazim um bom tempo que não escrevia nada sobre um bom livro.



O autor é o francês Georges Perec, e o livro chama-se Especies de Espacios (não temos uma versão em português, infelizmente... O ideal é ler no original em francês, pois há jogos de palavras bastante interessantes nele, mas como eu não falo/leio/escrevo/entendo francês...). Datando de 1974, o livro é uma narrativa em primeira pessoa, meio que autobiográfica, onde o autor relata experiências e impressões que possui de diversos tipos de espaços. Desde o espaço literário, passando pelo espaço da cama, para o quarto, o apartamento, o andar, o bairro, cidade, país, até o mundo, oferecendo ao leitor os mais inusitados pontos de vista, com as mais estranhas sugestões de utilização de espaços que se poderia imaginar. Aqui um exemplo:


"cuando en una habitación dada se cambia de sitio la cama, ¿se puede decir que se cambia la habitación, o qué?"


Não é das perguntas mais comuns de serem feitas, mas o que o escritor nos pede, mais do que respondê-la, é que pensemos nesses espaços comuns, pois são os espaços onde a vida acontece, onde o extraordinário ordinário se faz presente, onde de fato existimos. E esse existir muitas vezes acaba por chegar numa monotonia tremenda porque não se pensa nesses espaços, não se procura utilizá-lo de maneira diferente que aquela a que aprendemos a fazer, e que nossos pais nos ensinaram a usar, e que seus pais os ensinaram a usar, etc... Perec nos fornece motivos para questionar a organização arquitetônica de uma casa, o uso das paredes ("Podríamos escrebir en las pareder(...) pero rara vez los hacemos"), etc... Num outro exemplo primoroso da capacidade de escrita de Perec, ele nos coloca passo a passo as ações de uma mudança de residência:

"limpiar verificar probar cambiar acondicionar firmar esperar imaginar inventar invertir decidir ceder doblar curvar enfundar equipar desnudar partir enrollar volver golpear refunfuñar sombrear modelar centrar proteger entoldar amasar arrancar cortar conectar esconder soltar accionar instalar chapucear encolar romper atar pasar apilar amontonar aplanchar pulir consolidar hundir enclavijar enganchar ordenar serrar fijar clavar marcar anotar calcular medir dominar ver apear pesar con todo su peso ebadurnar apomazar pintar frotar rascar enlazar subir tropezar franquear extraviar hallar revolver tumbarse a la batrola cepillar enmasillar desguarnecer camiflar enmasillar ajustar ir y venir lustrar dejar secar admirar extrañarse exasperarse impacientarse sobreseer apreciar añadir intercalar sellar clavar atornillar fijar conser ponderse en cuclillas encaramarse enfriarse centrar acceder lavar evaluar contar sinreír sostener restar multiplicar quedarse plantado esbozar comprar adquirir recibir devolver desembalar deshacer orlar encuadrar engastar considerar soñar fijar agujerear estrenar una casa acampar profundizar alzar procurarse sentarse adosar apuntalar enjuagar desatascar completar clasificar barrer suspirar silbar mientras se trabala humedecer encapricharse arrancar fijar carteles pegar jurar insistir trazar acuchillar cepilla pintar agutejerear conectar alumbrar cebar soldar curvarse desclavar sacar punta atornillar distaese disminuir sistener agitar antes de usar afilar extasiarse rematar atrancar rascar desempolvar mniobrar pulverizar equilibrar verificar humedecer taponar vaciar triturar esbozar explicar encogerse de hombros acoplar dividir andar de aquí para allá hacer tensar cronometrar yuxtaponer acercar casar blanquear lacar volver a tapar aislar arquear prender ordenar enjalbegar fijar recomenzar intercalar extender lavar buscar entrar soplar

intalarse

habitar

vivir"




Que é essa mudança que não a própria vida, onde ações sucessivas, atuações que transformam a nossa realidade, a realidade do mundo e a realidade das pessoas que conosco vivem, e que, no fundo, bem no fundo, desemboca na simples palavra "viver", e que tantas vezes esquecemos disso? Que aqui estamos para a vida, e que nas coisas pequenas é que ela se faz, justamente naquelas que não nos atentamos, que não damos importância, tão preocupados estamos com coisas nem tão importantes assim... Não fruimos o mundo, apenas passamos por ele, e é a isso que Perec nos chama a atenção: "intalarse habitar vivir"...


Aqui, link para o início do livro no Google Books.

Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

...universos temporais...

Fazia tempo que não postava duas vezes no mesmo dia, mas como encontrei certo tempo tanto para perscrutar na internet por novidades (ao menos para mim) quanto para escrever, colocarei um dos meu achados aqui.

A artista se chama Jeanete Musatti, e a bela obra, "Tartaruga" (2005). Para mais sobre a artista em si, o texto de Ricardo Rezende é bastante bom. Aqui, escreverei apenas sobre a obra, que se mostrou bastante interessante, em especial em dois pontos: o uso dos materiais, e a semântica desses.

Quanto ao uso, é bastante bonita a interação entre a rugosudade visual do casco da tartaruga e a rugosidade tátil das pedras, a tal ponto de criar uma relação com a realidade (o animal em si) bastante interessante, já que essa rugosidade tátil também se encontra presente nas escamas de uma tartaruga de verdade. As formas das pedras, inclusive, poderiam ser originais, sem necessariamente terem sido trabalhadas pela artista, mas se sim se não, não importa.

Em relação à semântica dos materiais, o vínculo conceitual destes com o modo de trabalho da artista é bem forte. Aqui, um trecho do texto do Ricardo Rezende:

"O procedimento de constituição de arquivos, atualmente em voga na arte copntemporânea, esteve presente na obra de Jeanete Musatti desde o início de sua carreira: a arte transformada em algo como um arquivo, um pequeno museu de curiosidades, um guardado da memória e das experiências vividas plásticas, estéticas ou sensoriais"

Esse ato de arquivar, de guardar, está diretamente relacionado com a temporalidade das coisas. O tempo enquanto ator central num palco onde todos os personagens são afetados por ele, desde sua gênese à sua extinção. E os materiais escolhidos pela artista acabam por relacionar-se diretamente com esse material, o tempo. A tartaruga é conhecida por sua longa vida, longas viagens, com certo caráter de passividade, de observação, pelo seu andar lento e paciente. Um casco sozinho, sem o conteúdo vivo, realça essa idéia, pois remete-se ainda mais ao passado (e quem sabe o quanto esse "passado" pode ser?). Junto ao casco, estão os cristais de rocha, que levam anos e anos para se formarem, e trazem no seu íntimo partículas e moléculas e átomos que podem ter pertencido a qualquer coisa: outras pedras, mágma, dinossauros, um rei, uma árvore, um pássaro, ou quem sabe até mesmo uma tartaruga? Enfim, a união de ambos objetos faz crescer esse sentido de temporalidade, de sobrevivência da matéria ao tempo, fornecendo insumo para o pensar.

Para mais obras e textos sobre a artista, o site da Galeria Nara Roelser.

...formas coloridas...

Ano novo vida nova? Não, a vida é a mesma, mas de fato, a mudança de ano nos possibilita repensar nossos atos de maneira a quem sabe encontrar novas proposições de atuar. Isso é algo inconciente e acontece sem que percebamos... É como, numa comparação já batida, um caderno em branco. Todo novo caderno que pegamos para começar anotações como que fazemos um propósito de organização, de letra bonita e de não escrever nele bobagens, nem arrancar suas folhas. E assim é um novo ano!


O que pensei para esse ano? Ora, ser diferente! Mas isso é para outros posts, outras histórias. Quanto ao blog, pretendo ser mais constante nele... É só ver o ultimo post de quando data... É... faz um tempo... O importante é não parar!

Uma coisa que reparei também é que de dezembro pra cá, meu número de acessos diários caiu drasticamente. De quase 30 por dia, agora são 2 ou 3, num ápice de 7. Me parece que o pessoal que acessa esse blog é constituído basicamente de estudantes, que estando de férias, páram de estudar. Eita, brasilzão, né? Mas beleza, vou continuar gerando conteúdo para eles, para que nos seus trabalhos do semestre que iniciar-se-á em fevereiro/março, continuem tendo material de referência. Agora, ao post.

Hoje, de volta à pintura, escreverei sobre uma artista brasileira chamada Gabriela Machado. Como um caminho natural, a artista começou sua pintura figurativamente, com naturezas mortas, e agora pinta de maneira abstrata (Iberê Camargo também passou por esse caminho, depois finalizando sua vida de volta à figuração, embora de maneira pouco figurativa... É, essa sua fase final merece um post só para ele... Vejamos se terei capacidade para isso algum dia...). E é essa fase que aqui se encontra.

A obra ao lado faz parte da sua série "Cascas", de 2005. A fartura de tinta e de cores é algo bastante instigante nela, contrapondo-se à grande área limpa, branca no entorno da mancha de tinta, levemente deslocada do centro físico da tela. É um quadro de grandes dimensões (220 x 196 cm), o que o torna ainda mais impressionante. E ao mesmo tempo que percebêmos a iminente abstração presente na tela, vemos certo grau de figuração ao relacionarmos o nome ao conteúdo da obra. O termo "casca" remete a algo próximo a proteção, consequentemente, vitalidade, e na tela encontramos ambos elementos presentes respectivamente na cores derivadas do marrom na base da mancha e do vermelho, na sua área superior. Enquanto na parte inferior, essa "casca" possui veios bem marcados, com cores fortes, constrastando os ocres aos marrons e aos pretos, no vermelho há uma diluição, um certo caráter homogênio que engrandece essa contraposição das áreas da pintura. O gesto da artista em ambas áreas também prestam a essa impressão de interior/exterior a que o termo "casca" nos fala. O diálogo com o nome da série "Cascas" é fundamental à fruição da obra, bem como às demais telas.

Outra série sua, a série "vermelho" acaba chegando nesse mesmo diálogo nome e obra. O mesmo vermelho que antes nos lembrava certo organismo pulsante agora se encontra espalhado, fluido embora travado, ao longo da tela. Esse paradoxo "fluxo x estagnação" é um dos pontos de maior interesse na obra, pois embora esse vermelho seja expansivo, seu contraste com o branco é bastante forte, e as áreas onde aparece a tinta falha pela sua escasses no pincel da artista tornam esse sentido de estagnação bastante proeminente e expressivo. Ao contrário da série anterior, onde havia um núcleo na tela, um ponto pulsante, nessa há um esparramado por todo o campo, que transmite certa continuidade vertical que na outra não havia, chegando a instigar o observador a imaginar suas continuações, figurativando a abstração da tela.

Para mais sobre a artista, outros trabalhos no site do canal contemporâneo.

Terça-feira, 9 de Dezembro de 2008

...espaços cheios/vazios...

Encerrou sábado agora, dia 06/12, a 28a Bienal de São Paulo, uma das mais controversas exposições dos últimos tempos pela abordagem dos curadores, e a decisão de deixar vazio o segundo andar inteiro do prédio projetado pelo Niemeyer.
Mas como já comentei essa parte num post passado, aqui colocarei as minhas impressões após visitar a Bienal. Visitei a tempo de ver a bela performance Maurício Ianês "A Bondade de estranhos", que também causou certos comentários por aí a fora (muitos infelizmente mais focados na sua nudez inicial do que na sua atitude completa). O artista em suas performances normalmente foca no ponto da comunicação humana, mas nessa obra também é possível encontrar certa ironia social. O artista passou 2 semanas completas apenas do que recebeu das pessoas, e apesar de em determinado momento ter passado mal e vomitado, o "saldo" do que recebeu é bastante impressionante. Basta dar uma olhada nas fotos. A ironia está na pergunta: o que faz com que um artista que não corre perigo de vida algum (ele poderia desistir a qualquer momento, e pensou em vazê-lo) receba tantas doações para sua sobrevivência enquanto diversas pessoas morrem de fome na rua? Esse ponto me chamou bastante a atenção, até mesmo pelos depoismentos de pessoas que conversavam como Maurício, que lhe confiava segredos, que choraram, etc. Essas pessoas fariam o mesmo com um morador de rua? Esse certo grau de hipocrisia (que não pode ser generalizado) aponta para certas diferenças contextuais que se fazem bastante interessante, nos fazendo perguntar o por quê disso. Será um certo grau de "humanidade" no protagonista, coisa que não aparentaria haver num morador de rua, ou o local (uma exposição de arte), ou qual será?
Outro trabalho bastante bom também foi o do Iran do Espírito Santo (já falei dele em post passado também). A obra chama-se "Buraco de Fechadura", e data de 1999. Influenciado pelo movimento minimalista, aqui o artista trabalha com a questão espacial, lançando mão de uma das características do material utilizado, a reflexibilidade, para criar a ilusão de um ambiente interno a ele. O nome "Buraco de Fechadura" é como uma ironia ao resultado da obra. De longe, ela aparenta uma fenda na parede, mas na medida que nos aproximamos, seu caráter tridimensional se revela, bem como o ambiente reflexo, que na realidade é o próprio entorno do observador. A possibilidade de exploração do "além-parede" que uma fechadura normalmente possibilitam se mostra fracassada, revelando apenas a realidade do próprio observador, apresentada de maneira distorcida, nova a ele. Ele pode apenas observar o que já conhece, apenas de forma nova.

Outros trabalhos também se mostraram interessantes, como as máquinas de escrever que apenas escreviam pontos, ou os vídeos das performances da artista Marina Abramovic, e outros vídeos que se locavam no térreo da exposição. Outros trabalhos se mostraram simplórios, superficiais, por demais datados e auto-referentes, que não me pareceram relevantes o suficiente pro contexto, mesmo que pensados para ele. É o caso do trabalho da Valeska Soares (artista também já comentada aqui, embora daquela vez ela tivesse feito um trabalho bastante melhor), que colocou próximo à entrada da exposição um amontoado de letras em papel, todas sobre um grande tapete representando a capa do catálogo da primeira Bienal de São Paulo. A artista pegou o parágrafo introdutório do catálogo, pegou suas letras, as embaralhou e amontoou por sobre ele, como se estas estivessem "fugindo" dele, para uma nova avaliação do que seria essa bienal, uma nova leitura a ser feita. De fato, é essa a proposta da bienal em si, uma releitura do formato bienal, etc., mas a obra em si não possui força, chegando a ser literal demais, sem um elemento "surpresa", apenas uma figuração do conceito dos curadores. E é nesse ponto que peca. Fora que, a meu ver, esses trabalhos "encomendados", que não partem do artista diretamente, mas são feitos sobre certo pedido, são sempre inferiores se comparados à produção inerente ao próprio artista. Enfim, essa é uma visão que poderia ser discutida, trata-se apenas de uma impressão que tive.

Há outros trabalhos bastante bons, mas como o post já se prolonga, gostaria apenas de terminar comentando a exposição em si. Esse vazio colocado no meio da exposição, funcionando como uma quebra, pois o visitante vem de um andar com obras e ao passar para outro, não possui nada, só podendo encontrar mais no terceiro andar. Ou seja, esse andar foi passagem obrigatória. Eu aceito a idéia por detrás dele, mas não a justificativa "espacial" apresentada pela curadora, de observar o espaço projetado por Niemeyer no seu estado puro, a luz entrando no prédio etc. Essa é uma tentativa falha de conceitualização sobre algo, ou mesmo de justificar esse algo, e muito forçada. Se o vazio é o ponto de apoio, que seja ele, não chamemos a atenção para o espaço. Vazio é vazio, e a metáfora se fez muito bem, não precisando de mais explicações. E assim como essa explicação, grande parte da exposição também se mostrou precária. Descuidos de montagem, de locais usados, de pensamento expositivo, improvisos, falta de acabamento, etc. dominaram essa bienal. E esse descuido também causou uma péssima impressão naqueles que já não entendem o "linguajar" da arte contemporânea, afastando-os mais ainda de tentarem entendê-la.

No entanto, o saldo ainda me parece positivo. Quem não foi, perdeu. Quem foi e estagnou na questão do espaço inutilizado, também (e não na questão que ele explora). Assim como aqueles que pararam no nudismo do artista, ou no acabamento medíocre da exposição. No resto, valeu a pena. Torçamos apenas para uma melhor organização daqui a dois anos, para que esses pontos se solucionem.

Quarta-feira, 19 de Novembro de 2008

...minimalismo e design minimalista...

Pronto. Deixo aqui o PDF final da minha pesquisa sobre arte e design minimalista. Devo confessar que não está totalmente acessível, pois envolve alguns pontos de análise semiótica, artistas específicos, movimentos do design que são necessários certo envolvimento, etc. Mas, de qualquer maneira, achei o resultado razoavelmente satisfatório, e por isso o disponibilizo por aqui.


Estou bastante feliz inclusive pois o conteúdo sobre esse tema em terras brasilis é ínfima. Mesmo fora daqui, design minimalista é um assunto meio nebuloso, cheio de preconceitos e senso comum. Boa leitura (caso a paciência o permita...).

Quarta-feira, 5 de Novembro de 2008

...imagem temporal...

Esse será por certo um post que foge do conteúdo habitual... Não vou dizer que não falarei de arte, pois o vejo como tal. Mas será algo mais pessoal, que me impeliu a escrever... Trata-se de algo que me tocou quando vi uma imagem e que me fez pensar e rever algumas coisas. Aqui está ela (espero não ser processado pelo autor...)


Não é uma pintura, nem uma gravura, nem um desenho à mão de genero algum, nem mesmo uma fotografia, mas uma imagem 3D (fora esse paradoxo nominal, é isso mesmo). O leitor pode se perguntar o motivo dessa imagem, e ñão qualquer outra coisa de arte contemporânea. Bom, como disse antes, isso me obrigou a escrever, não tive escolha... A imagem por si fala bastante já, mas o texto acompanhante acrescenta algo a ela:

"When i was little guy, i usually went on my vacations to one small city called Itobi (São Paulo – Brazil) with 8.000 habitants, in my aunt´s house.
After 9 years, i come back this one to enjoyed a weekend, and then i has a nice idea!
In the truth, i was thinking about my life, how fast the time passes, and how long the things changes, then i decided to make this work."

Impressionante, não? O que essa imagem mais me tocou é quanto a essa poesia absoluta de correspondência entre seu conteúdo e sua descrição. A sutileza é algo que a torna ainda maior. O autor, Pedro Conti (o leitor atencioso vai perceber que é ele também o dono das fotos da performance dos irmãos guimarães logo abaixo), da mesma maneira que eu fui impelido a escrever sobre essa imagem, foi também impelido a fazê-la. Como que uma necessidade. As imagens que possuimos da nossa infância, adolescência, ou qualquer das fases, são algo de muito forte e precioso, pois fazem parte da nossa inscrição na realidade, da nossa atuação no tempo e espaço, por menores que tenham sido. E que forma melhor de perpetuar esses traços que não nossa própria impressão a respeito deles? Uma fotografia pode dizer muita coisa. Pode alocar no tempo o ocorrido, pode precisar as pessoas presentes, ou qualquer outro fator visual naquele momento, mas ainda assim, seu fator subjetivo 'e reduzido se comparado com uma produção manual e pessoal, vinda da alma, e não dos sentidos, não do racional. E é justamente isso que me chamou a atenção nessa imagem e me incomodou: o que eu faço para perpetuar de maneira íntegra os sentimentos e emoções dos momentos marcantes da minha vida? e o leitor?

Sobre a imagem em si, há muitos os pontos que descrevem esse momento pessoal que tornam extremamente viva a vivência a que o autor nos quis passar: a bicicleta ao canto da casa, pequeníssimas aves ao fundo do céu, uma pequena pipa sobrevoando e tudo observando, e o mais forte de tudo, dois pés de chinelo estirados no chão, a formar um gol, característica fortíssima da capacidade criativa das crianças, e uma bola mucha, mas que isso tanto faz... Mucha ou cheia, o resultado é o mesmo... Diversão.

O modo como essa sensação foi exposta foi algo sublime. De tal forma que, como eu disse, eu TIVE que escrever... E aqui está.

Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008

...entendendo o vazio...


Depois de postar
nada, falar sobre nada pode fazer sentido, não? Parece uma questão importante ressaltar onde se deseja chegar com a bienal que está acontecendo nesse momento e essa "proposta do vazio". Para começar, um pequeno texto que abre também a explicação do evento no próprio site da 28 bienal de arte de são paulo.


"Por sua própria definição, a Bienal deveria cumprir duas tarefas principais: colocar a arte moderna do Brasil não em simples confronto, mas em vivo contato com a arte do mundo, ao mesmo tempo em que, para São Paulo, se buscaria conquistar a posição de centro artístico mundial. "
[Lourival Gomes Machado, “Apresentação”. in: I Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo, 1951, p. 14].

A exposição ficou conhecida como "bienal do vazio", mas seu tema real é "em vivo contato", muito pertinente para a proposta que se apresenta. Um evento das proporções da bienal, com sua importância mundial (no patamar próximo às gigantes Bienal de Veneza e Documenta Kassel), tem a função de revelar o que se tem feito de mais importante no mundo da arte, expor as "tendências" mundiais, criar diálogos regionais de modos de pensar a arte, de fazê-la, de entendê-la, e o que se faz na 28 bienal é justamente não só pensar essa produção contemporânea, mas pensar o modelo de exposição "bienal" no paradigma que vem sendo estruturado.  Grandes feiras, proporções gigantescas, variedade espetacular, orçamentos monumentais, etc., a bienal desse ano vai quase que na contramão disso, chegando ao ponto de deixar um andar inteiro vazio (alvo de vandalismo por parte de determinados pseudo-artistas na busca de exposição na mídia) para tornar mais forte essa questão. 

"Em lugar de tentar produzir uma visão totalizante e representativa do fenômeno da arte da atualidade, o importante parece ser delinear especificidades, produzir cartografias estruturais, pondo em marcha um processo de trabalho investigativo e crítico, regular e sistemático, que acompanhe e dê conta, de modo produtivo, dos movimentos e das transformações percebidos num circuito artístico determinado." - Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen, curadores.

Que mudanças são essas de que o curador fala? O modo de fazer a bienal vem sendo o mesmo desde seu princípio, ou seja, 1951, quando o panorama artístico tanto nacional quanto internacional eram talvez coerentes com esse modo de exibição, e mesmo o pavilhão desenhado a seguir por Oscar Niemeyer também o fosse. De modo bastante grosseiro, aqui o movimento concreto era bastante forte, e a pintura dominava nosso país. Mesmo fora, ainda era ela quem reinava, embora já se encaminhasse para o que na década de 70 seria chamado de arte conceitual. No entanto, ao comparar com o que se produz hoje, vemos que a diferença é gritante. Se expandiram as fronteiras do que se entende por arte, onde ela pode chegar, mudou o modo como se ensina arte inclusive, assim como as preferências dos artistas, criaram-se novas relações, novos pensamentos foram introduzidos, visões políticas ou ideológicas, etc... A variedade hoje é tamanha que mapear de forma completa o panorama artístico mundial é uma tarefa no mínimo ingrata, mais precisamente, impossível. Sem falar que o papel do curador mudou, onde é ele que traça, pensa e interpreta a realidade e a arte ao montar "sua" exposição, com algo o que falar, uma história a contar, com coisas que ele vê como relevantes. Há ainda pouco tempo, eram as representações internacionais que enviavam seus artistas, mas a partir da última, a figura do curador "tomou o poder" para si, e esse já é um debate bastante inflamado que está acontecendo... 

Esse post foi mais para expor certas idéias do que está acontecendo com essa bienal, e recomendo, para que se entenda melhor ainda esse panorama de que falamos, que se vejam os vídeos no site da 28 bienal com os debates ocorridos antes do início da bienal (são os quadradinhos azuis nos meses de jun/out). 

Aqui, Raul Mourão coloca a entrevista do curador Ivo Mesquita à revista Bravo!.

Aqui, um link para várias entrevistas feitas em 2007 sobre essa proposta dos curadores.

E para finalizar, um link para uma entrevista ao estadão, com ambos curadores.

Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008

...post vazio para a bienal do vazio...